Há uns meses atrás, num centro comercial de pequena dimensão aqui da zona, reparei que num banquinho que lá existe no átrio principal estava um idoso sentado, completamente sozinho, a olhar o vazio com uma expressão apática e sem rumo. Nos dias seguintes que lá passei dei com o mesmo idoso, no mesmo sítio, a fazer exactamente o mesmo, ou seja, a fitar o infinito sem qualquer reacção. Fortuitamente vim a saber que o senhor tinha acabado de ficar viúvo, e os dois filhos que tem, há muito que tinham ido à procura de uma vida melhor no estrangeiro, só vindo a Portugal de tempos a tempos. E foi aqui que percebi de que maleita padecia o senhor: solidão.
A solidão na terceira idade é uma coisa que me aflige. Mesmo sendo jovem e sabendo que, se lá chegar, a terceira idade ainda está muito longe, receio bastante vir eventualmente a passar pelo mesmo. Por vezes temos que sair da nossa bolha egocêntrica e colocarmo-nos no lugar de outrem: imaginem o que deve sentir uma pessoa já com mais de 80 anos, viúvo, reformado, sem amigos, com os filhos longe, completamente sem rumo. O silêncio da sua casa deve ser o som mais violento que aquele senhor jamais ouviu. No fundo, ele ia para aquele banco de um centro comercial passar o tempo, queimar os dias, ver pessoas, para ter noção que ainda se encontrava no planeta Terra. Ainda mais frustrante deverá ser depois de termos tido uma vida cheia: termos aproveitado a juventude, termos casado, tido filhos, vê-los a crescer, termos passado a vida a trabalhar... E depois, assim de repente, somos postos de lado, e toda a gente se esquece de nós, como se nunca tivéssemos existido, como se nunca tivéssemos deixado alguma testemunha viva da nossa existência.
Há coisas que nos dão que pensar. Um dia posso ser eu.
A solidão na terceira idade é uma coisa que me aflige. Mesmo sendo jovem e sabendo que, se lá chegar, a terceira idade ainda está muito longe, receio bastante vir eventualmente a passar pelo mesmo. Por vezes temos que sair da nossa bolha egocêntrica e colocarmo-nos no lugar de outrem: imaginem o que deve sentir uma pessoa já com mais de 80 anos, viúvo, reformado, sem amigos, com os filhos longe, completamente sem rumo. O silêncio da sua casa deve ser o som mais violento que aquele senhor jamais ouviu. No fundo, ele ia para aquele banco de um centro comercial passar o tempo, queimar os dias, ver pessoas, para ter noção que ainda se encontrava no planeta Terra. Ainda mais frustrante deverá ser depois de termos tido uma vida cheia: termos aproveitado a juventude, termos casado, tido filhos, vê-los a crescer, termos passado a vida a trabalhar... E depois, assim de repente, somos postos de lado, e toda a gente se esquece de nós, como se nunca tivéssemos existido, como se nunca tivéssemos deixado alguma testemunha viva da nossa existência.
Há coisas que nos dão que pensar. Um dia posso ser eu.
27 confissões:
Isto é ligado ao que a imprensa agora achou como novo fetiche, que são os casos de mortes de idosos que só se vêm a descobrir X tempo depois.
Está um post a sair sobre este tema da imprensa, por acaso.
@Jedi
Se vires bem, isso ainda é mais triste. Uma pessoa morre e ninguém sequer sabe que ela morreu? Acho que ninguém tem noção da gravidade disto.
No man is an island.
Todos, em qualquer fase da vida, precisamos de alguém.
E é por isso tão importante cuidarmos de quem gostamos e fazermos por os ter perto sempre.
Deixa-me completamente angustiada saber que eu e os meus irmãos estamos em cidades diferentes das dos meus pais ...
Sabes eu acho que isto acontece essencialmente nos meios urbanos.
Eu vejo na terra dos meus avós, uma aldeia pequenina da beira e as pessoas todos os dias se encontram, ali num banquinho da paragem do autocarro para dar dois dedos de conversa. No verão é à noite e no inverno, o banquinho fica ao sol e lá ficam elas na conversa. E via quando a minha avó era viva, se alguma delas faltava a missa, depois da missa e não a viam há uns dias... lá arranjavam maneira de irem a casa uma das outras saberem se estava tudo bem.
E ainda hoje é assim.
Aqui em Lisboa, na outra casa, conhecia todos os vizinhos do meu andar, depois mudei de casa e agora estou num bairro tradicional. Sempre que encontro uma das minhas 3 vizinhas com idade para serem minhas avós dou-lhes dois dedos de conversa. E elas já sabem que se precisarem de alguma coisa, podem lá ir bater à porta,(só que estou pouco tempo em casa, mas o meu pensamento é sempre o mesmo: Hoje elas amanhã eu.
É muito triste sim.E quando dormem na rua?Sem casa?E alguns com filhos!!Foi o que me aconteceu quando na baixa de Lisboa,um Sr. de idade avançada me pediu...comer.Fiquei tão triste.Paguei-lhe uma sandes e uma sopa,e após dois dedos de conversa(com muita gente parva a olhar de lado,gente atrasada),disse-me que tinha dois filhos Drs.Fiquei doente...;(
também é uma coisa que me assusta imenso. Não tanto por ter medo que me aconteça quando chegar lá - e sim, tenho bastante medo - mas mais porque me faz uma pena enorme ver uma pessoa assim sozinha e deprimida, tendo a plena consciência de que não tem ninguém.
Sim, é, realmente, uma coisas assustadora, ver a quantidade de "velhotes" que estão por aí sozinhos... E ainda mais triste é pensar que muitas vezes os filhos nem estão assim tão longe, pelo menos fisicamente. Só não estão é para se chatear. Infelizmente tive contacto com alguns casos assim...
Se a velhice, apesar de ser nova, me assusta um bocado, essa é uma das razões!
Aconteceu-me uma vez estar a tomar café sozinha e um senhor idoso perguntar se se podia sentar, eu disse que sim e o senhor aproveitou para 2 dedos de conversa. O senhor tinha tido 7 filhos e estava viúvo, pelo que percebi todos os filhos se encontravam bem na vida mas ele afirmou que não via alguns há anos e que os outros vinham apenas quando era para pedir dinheiro ou géneros!
Deve ser uma sensação frustrante andar a criar filhos, a tentar dar-lhes sempre o melhor e depois eles virarem as costas e só se lembrarem que existes quando precisam das notas, ou às vezes nem isso!
eu confesso que leio isto e fico logo a chorar...é uma coisa q me faz muita confusao...moro numa aldeia e aqui nao ha muito disso...
Mas a verdade é que me abstenho d ir para zonas mais urbanas passear por vezes pq vejo coisas destas, e como chorona q sou começo logo num pranto e ando ali angustiada durante dias...e se algum velhinho se aproxima d mim nas circunstancias q a "Mamã de Salto Alto" disse ai é que fico devastada...
Deviam haver mais maneiras de apoiar estas pessoas...e mais pessoas tambem a interessarem se por apoiar...
É mesmo preocupante...desde que a minha avó morreu o meu avô queixa-se muito da solidão. Ainda que nós tentemos ir a casa dele todos os dias ou dia sim dia não, o resto das horas, que são muitas, passa-as sozinho. Um casamento de 60 anos e uma casa cheia de crianças depois, deve ser mesmo muito difícil ver-se nesta situação. Saio de lá sempre com o coração apertado.
recentemente com o meu falecido avô tava la um velhote no hospital que era 5 estrelas os filhos pura e simplesmente não queriam saber dele estando mesmo ca em portugal o velhote chegou a perguntar-nos se era preciso "pagar" alguma coisa para o visitarem isto sim é simplesmente de arrepiar ainda me lembro disto mesmo passando 2 anos
Não queria estragar um sentimento tão nobre com a minha bestialidade, mas... se fores velho com dinheiro vais ver que tens os familiares todos à perna; mais, eu também achava que a partir de certa altura era sempre a descer, mas agora consegues ir Cuba e trazer de lá companhia prestável sem gastar muito. São alternativas lool
Gostei muito do seu texto. Tenho lido em outros lugares posturas muito rudes com idosos, principalmente de pessoas que vivem do outro lado do Atlântico. Por cá observo que os avós são tratados com muito carinho pelos netos e possuem um acolhimento maior na sociedade.
Mas independente disto é provável que um dia a pessoa venha a estar sozinha, devido às perdas. Então são importantes algumas iniciativas, a serem tomadas antes, que penso que farão amenizar este momento.
1- Conserve seus amigos. Eles envelhecerão junto contigo e juntos poderão fazer algumas atividades, jogar cartas, viajar, praticar um esporte, ou ficar a ver as mocinhas a passar na praça.
2- Cultive sempre um hobbie qualquer que o distraia. É terapêutico, ocupa a mente e te mantém feliz. Pode ser colecionar álbum de time :)
3- Se der para manter uma atividade física, será muito para saúde mental e física. Nadar, andar de bicicleta (vi muitos idosos a andar de bicicleta na Europa)
4- Para o caso de falecimento da (o) companheira (o) o fato de ter amigos poderá abrir a possibilidade para conhecer uma nova companheira (o). A vida continua e é bom ter companhia para esquentar os pés.
5- Seja agradável não fique a falar de desgraça, doença, remédios, ai isso, ai aquilo. A vida se dá na vida. Não se deve puxar a morte antes da hora.
6- Desenvolva sempre um olhar para o belo (tem relação com item anterior). Olhe as coisas bonitas da vida, aprecie, nutra-se delas.
7- Aprenda a ser útil, a servir, sempre. Quando uma pessoa é útil, ela possibilita ter outros por perto. Um vovozinho que cuida dos netos, sem dúvida é maravilhoso ter por perto. Conheci um avô que levava os netos para aula de inglês, para escola, para natação... enfim era útil.
8- Poupe recursos financeiros, para não depender de ninguém e poder bancar serviço médico, remédios e se tiver saúde, que é o melhor, ter lazer descompromissado sem o estresse da juventude.
Acho que para se ter uma boa velhice é necessário começar hoje a ter uma vida com qualidade, tendo a visão de um planejamento a longo prazo.
Eu pensava que tu nunca dizias nada de jeito e hoje sais-te com esta!
A terceira idade é muito ingrata. A questão da solidão é apenas uma das muitas que afligem as pessoas idosas.
Um abraço,
Nuno.
Quando li o seu post fiquei curiosa por saber de onde era...porque na cidade onde moro costumo ver um sr. idoso sentado nos banquitos de um dos centros comerciais mais movimentados da cidade, que tal como o que refere, está lá todos os dias, de manhã à noite e tal facto sempre me despertou curiosidade e hoje após ler o seu post e perceber que conseguiu de alguma forma justificar a presença desse sr. nesse local todos os dias, bateu-me uma enorme vontade de ir ali a correr ao centro comercial encontrar o sr. e saber o porquê de ali estar também... :)
Estas coisas afligem-me tanto =\
Eu, não vou tar aqui a contar a historia toda pq é enorme, tomo conta da minha avó. È um metro e meio de gente com a força mais incrível que conheço, um doce com uma simpatia imensa mas teimosa como tudo! Amo esta pessoa do fundo do coração, jamais a abandonaria á solidão (nem eu, nem a minha mãe, pai e irmão). Ver esse tipo de coisas inquieta-me, saber que muitas vezes as famílias abandonam os seus no hospital para ir de férias dá-me voltas ao estomago..tenho vontade de os encher de estalos, é triste!
É uma das coisas que mais me aflige, é chegar a uma idade mais avançada e andar completamene sozinha e sem qualquer objectivo. Deve ser extremamente triste, o meu avô ficou viuvo á pouco tempo e apesar de eu lá ir todos os fins-de-semana, não consigo ir mais que isso pois ainda mora longe, e já não é a primeira vez que o oiço dizer "Tenho medo de um dia ficar mudo por não falar com ninguém durante a semana inteira", tento ligar para ele o máximo de vezes possivel mas ainda assim me fico a sentir mal...
Um exemplo real: Sou funcionaria de uma loja de roupa e aqui á uns dias encontrei uma velhota, que me chamou e perguntou onde tinha calças para ela, que tinha um jantar e queria ir bem...reparei que a senhora estava com os olhos em lágrimas do esforço para estar ali, de pé, num centro comercial..eu quis encaminha-la á secção certa mas a senhora andava mesmo mal e a secção ficava depois de umas escadas na própria loja, ou seja, ela n ia conseguir. Ajudei a senhora a sentar-se nas escadas e com o numero dela trouxe-lhe todos os modelos que tinha para ela escolher, depois para pagar outro drama..o marido estava la fora a segurar o carro das compras, ou seja ja tinham ido as compras sozinhos. Tive que levantar a senhora das escadas (ainda era forte) para a levar até ao marido, para ele vir pagar as calças...a senhora beijou-me as mãos e agradeceu-me tanto que eu fiquei de lágrimas nos olhos!2 velhos a andar mal, com tto esforço para vir as compras para a casa e comprar umas simples calças...custou-me muito! Onde andam as famílias?Passei a minha hora de jantar de lágrimas nos olhos e com vontade de ir abraçar a minha avó e agradecer muito o poder tomar conta dela...enfim, sad story ;x
Com esta apanhaste-me o lado fraco ;)
É disto que tenho medo. Ainda não tenho filhos, mas espero ser sempre o pai, avô e bisavô porreiraço, mesmo que caquético. Que tenham gosto em estar comigo, independentemente da idade.
Desejo que esse senhor faça novos amigos e companhias no centro comercial. Seja onde for, vale a pena.
http://simaoescuta.blogspot.com (novo dia na Ásia!)
Esse assunto também me deixa com medo. Medo de ficar assim um dia e, medo ainda maior de não ter hipótese de acompanhar os meus pais e de os deixar assim uma dia (Sim, porque a emigração é uma alternativa séria pela qual tenciono optar. E só somos 2 filhas). É muito triste essa realidade. O meu avô enviuvou em 2009 e o que vale é que todos nós vivemos aqui com ele e ele tem tido sempre companhia. Felizmente, e apesar dos 88, ainda tem muita força e está completamente lúcido, o que lhe permite dar os passeios e seguir a sua rotina. Mas mesmo assim, quando o vou visitar, a hora da despedida é sempre um momento de tristeza para ele. Insiste sempre para ficar mais um bocadinho, porque tem plena consciência que até ao dia seguinte vai estar sozinho. Se com um idoso com acompanhamento e companhia diária custa a hora da despedida, não imagino o sentimento angustiante que idosos como os que falas no post sentem. E é por isso que, mesmo sabendo que ainda falta muito tempo, já venho vindo a pensar nisso e, de facto, é algo que receio bastante.
Os velhos chegando aos setenta anos, ou menos se forem caquéticos, deviam morrer todos porque já não andam cá a fazer nada e muitas vezes só dão trabalho aos filhos que sabe Deus como lutam com as dificuldades da vida.
E não estou a falar por falar porque tenho 68 e o que menos queria era vegetar.
Porque é que as pessoas náo compreendem a vida? A vida é assim mesmo! Tem que se morrer então que se morra sem chatear ninguém.
O que mais me admiro e não compreendo mesmo é ver velhos, mas velhos quase centenários agarrarem-se à vida com desepero. Porquê? Pergunto eu. Querem viver para quê se já nem conhecem filhos nem netos. Vegetam!
Sou cruel e desapiedado? Não senhor! Sou pragmático e absorvedor das coisas reais.
Deve-se viver com honra e morrer com dignidade.
@Alexandrina
Estou a referir-me ao Centro Comercial Palmeiras, em Oeiras.
Semi-vizinhos. Muito já andei eu nas Palmeiras. Dantes havia o Frog lá no canto, gostava.
@POC
Isso já foi há anos e anos! Mas aquilo não era nada mau...hoje em dia é uma Churrasqueira.
É das coisas que mais mexem comigo. Vou às lagrimas facilmente só de observar assim um idoso e imaginar que história terá aquela solidão.
Ora bem, está aqui uma pessoa a planear emigrar, conforme indicações fortes dos nossos governantes, a incentivar a descendência a emigrar logo que possa também, vem aqui para rir um bocado, e dá com isto? Tenho uma irmã, uma sobrinha e um cunhado do lado de lá à minha espera. Do lá de cá ficam os meus pais, uma irmã e um cunhado, mais uma sobrinha e um sobrinho e o que tem pesado mais na minha decisão é sentir que os que ficam simplesmente não se vão bastar uns aos outros e que a minha ida vai desmanchá-los e não quero o meu pai ou a minha mãe em bancos de centros comerciais. Porra! Não volto aqui nos próximos tempos :(
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